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História

São Cipriano, freguesia do concelho de Resende, distrito de Viseu, abrange uma área aproximada de 6,18 quilómetros quadrados. Esta freguesia é limitada a Norte pela freguesia de Freigil, a Nascente pelas freguesias de Cárquere e São Romão de Aregos, a Poente pela freguesia de Ramires (Cinfães) e a Sul pela freguesia de Ovadas. Dista nove quilómetros da sede do concelho e é constituída pelas seguintes povoações: Nogueira, Lagariça, Matos, Covelinhas, Lagares, Lourêdo, Prado, Galizes e Torrinha.

São Cipriano é uma povoação airosa, mas ao mesmo tempo muito acidentada, especialmente na parte mais baixa, quando descai para o rio Cabrum.

Esta freguesia foi uma das mais importantes do julgado medieval de Aregos, como o confirmam as Inquirições de D. Afonso III de 1258. Nesse documento são enumeradas diversas vilas tais como : Covelas (dita de Cabrum no século X), Lagares, Lagariça, Lourêdo, Matos, Nogueira e Telhado. Nesta altura a vila de Covelas era então de cavaleiros, de mosteiros e igrejas. Os seus moradores pagavam à Coroa diversas multas e obrigações: “voz” e “coima” (por crimes) “hoste” e “anuduva” (serviço militar), “portagem” e “entroviscada”. Onze casais da vila tinham ainda de pagar anualmente nove quarteiros de pão e nove capões, mas isto nem sempre acontecia. Alguns fidalgos, entre os quais Pedro Soares “Coiros”, ameaçavam o mordomo do rei e este com medo não se atrevia a cobrar fosse o que fosse. As vilas de Lagares, Matos, Lagariça e Telhado estavam sujeitas à Coroa apenas em relação aos crimes mais graves, pois beneficiavam do facto de serem Honras antigas. Na vila de Louredo havia quatro casais de fidalgos que pagavam foro. D. Urraca Peres de Matos, Pedro Soares “Coiros” e D. Elvira Peres tinham nesta vila um casal cada um. Treze casais da vila de Nogueira pertenciam à Ordem Religiosa Militar do Hospital e a fidalgos. Segundo as Inquirições de D. Afonso III estes casais tinham sido de D. Gomes Mendes “de Pinheirô” (ou Pinheiro) e em 1258 eram da Ordem do Hospital, dos filhos de Martin Rodrigues, de Lourenço Peres de Matos e do célebre Mestre Vicente (influente político do tempo de D. Sancho II). Os restantes oito casais do lugar de Nogueira pagavam ao rei diversos tributos e obrigações e estavam sujeitos à entrada do mordomo do rei. Nas Inquirições de D. Dinis de 1288, as testemunhas referem que em relação à “quinta” de Matos, “a viram sempre honrada”. Em relação à “quinta” de Nogueira, da qual era senhor Roy Martins de Galafura, o jurado prestou a seguinte declaração: “É honrada e honra seis casais que aí há com esta quinta”.

 

Em 1290 o rei D. Dinis manda redigir as sentenças das referidas Inquirições, respeitando os privilégios destes casais: “Estejam como estão, enquanto forem de fidalgos”. Os jurados referem ainda a existência de três casais (um da Ordem do Hospital, outro de S. João de Tarouca e outro do Mosteiro de Ancede) no lugar de Lourêdo e seis casais no lugar de Matos (quatro do Mosteiro de Travanca e dois do Mosteiro de Ancede). A respeito de todos estes casais, o rei decide o seguinte: “Sejam todos devassos e entre aí o mordomo do rei por todos os seus direitos”.

O foral novo dado ao concelho de Aregos em 1 de Setembro, pelo rei D. Manuel I, nomeia os lugares de Covelinhas, Louredo, Lagares e Nogueira. Em Covelinhas havia então nove casais e cada um deles pagava as suas obrigações à Coroa. Por sua vez no lugar de Louredo havia três casais. A “quintâ” de Lagares e o casal do Prado no lugar de Nogueira também tinham que cumprir com as suas obrigações.

São Cipriano tinha nos séculos XVII e XVIII diversas propriedades foreiras a Casas ilustres e a Mosteiros importantes. Os bens destas propriedades foram certamente doados ao longo dos tempos pelos próprios senhores aos mosteiros, como bem de alma ou em troca de qualquer benefício de ordem religiosa. Em Maio de 1242 D. Elvira Ermiges fez um contrato com o Mosteiro de S. João de Tarouca, através do qual lhe cedia um casal situado em Covelinhas, em troca de sepultura no dito Mosteiro. Em 1306 Gonçalo Rodrigues, fidalgo de Galafura, doou ao Mosteiro de Salzedas tudo o que tinha em Covelinhas e em Nogueira de Arêgos.
A antiguidade de São Cipriano não se fica pelo século XIII. Um documento do ano 946, enumerava várias vilas rústicas, algumas das quais haviam de pertencer mais tarde à freguesia de São Cipriano: “Cobellas de Kapruno” (de Cabrum), “Nogaria”, “Villa Noba”, “Cizilani”, “Guiariz” e “Castrello”. O povoamento destas terras é antiquíssimo, podendo mesmo remontar aos tempos pré-históricos. O próprio nome do rio (Cabrum) é uma designação muito antiga. “Cabrum” deriva provavelmente do adjectivo latino “caprunum” (derivado de capra=cabra) ou de um nome mais antigo. Caprunus é uma variante mais tardia de Caprinus. Encontramos ainda diversos nomes de origem romana como por exemplo “Quintâ”, “Vila Nova”, “Louredo”, “Portela”, “Devesinha” e talvez “Freida”. “Covelas” e “Covelinhas” são diminutivos de “cova”. Cavum, em latim, significa buraco, abertura. Uma prova da povoação deste território, provavelmente do tempo proto-histórico, são as sepulturas de uma criança e de um adulto cavadas numa rocha no alto do Feirão, ao cimo da freguesia. Junto ao campo de futebol também existem duas outras sepulturas do mesmo género.

Durante toda a Idade Média, todos os homens casados de São Cipriano que cultivassem casais pagavam um tributo para a capela de Santa Maria Madalena de Arêgos. Anexo a esta capela havia o “hospital” para tratamento e cura de “lázaros” e “gafos”. Este “hospital” foi fundado pela mulher do nosso primeiro rei, a rainha D. Mafalda, a qual determinou que os lavradores contribuissem para a ajuda das despesas.

Durante toda a Idade Média e Moderna, São Cipriano foi pertença do concelho e julgado de Arêgos. Em 1855, com o advento do Liberalismo este julgado desaparece. São Cipriano passou então a integrar o actual concelho de Resende.

Alguns autores afirmam que nessa altura a Casa de Audiências e a Cadeia do Concelho estavam situadas em São Cipriano. Pinho Leal in “Portugal Antigo e Moderno” afirma que tal acontecia em 1834 e afirma que a dita Casa de Audiências se encontrava no lugar de Vila Nova. De facto no livro “Inventário de Bens do Concelho de Arêgos” de 1854 encontramos o seguinte registo: “Uma Casa no lugar de Vila Nova de S. Cypriano que serve de Paços do Concelho contendo no pavimento alto uma salla grande onde a Câmara faz as suas sessões e a qual serve para as audiências e demais actos judiciais, e duas piquenas sallas contíguas; e huma cosinha.

E no pavimento inferior duas lojas, com seu pelourinho que está nas Caldas”.
Quanto ao topónimo da freguesia facilmente se conclui que provém do titular de sua igreja. São Cipriano foi um santo mártir do século III que deu testemunho de Jesus Cristo com o próprio sangue. Na Idade Média designava-se “S. Cibrão” e no Censual do Cabido de Lamego, do século XVI, vem “San Cibrian”. São Cipriano foi Bispo da cidade de Cartago no norte de África, desde o ano 249 ao ano de 258. Antes de se converter ao cristianimo era professor de retórica. No ano de 245 foi baptizado, levando a partir de então uma vida santa. Escreveu várias obras sobre as verdades da fé, sobre as normas da vida moral cristã e sobre a disciplina eclesiástica. Pelo seu grande valor, autoridade e virtude, tornou-se naturalmente o chefe da grande cristandade que então existia no Norte de África. Quando chegou a hora da perseguição, o procônsul Galério Máximo perguntou-lhe:

- Tu és Táscio Cipriano?
- Sim! — respondeu.
- Fizeste-te pontífice destes homens sacrílegos?
- Sim.
- Os santíssimos imperadores mandam que tu sacrifiques.
- Não sacrifico.
- Reflecte bem, enquanto tens tempo!
- Faz o que te ordenaram. Não há aqui lugar para reflexões!
Então, a sentença não demorou:
- Tornaste-te inimigo dos deuses de Roma e das suas santas leis. Já que os nossos sagrados imperadores não conseguiram fazer-te voltar à prática do seu culto, o teu sangue será a sanção das leis. Ordenamos que Táscio Cipriano seja morto à espada.
- Deo Gracias (Graças a Deus)! — respondeu Cipriano.

Chegado ao local da execução, desprendeu o manto, prostrou-se com a face por terra e rezou. Depois tirou a túnica e esperou pelo carrasco. Ele mesmo vendou os olhos. E foi assim que São Cipriano deu a vida por Cristo e pela Fé, no ano 258 da nossa era.

A paróquia de São Cipriano terá sido constituída em finais do século XII ou princípios do século XIII. Nas Inquirições de 1258, um jurado testemunhou que era o Mosteiro de Ancede e outros fidalgos que apresentavam o pároco de São Cipriano. O primitivo templo de São Cipriano foi certamente edificado por um senhor proprietário do lugar, que mais tarde o terá doado aos frades de S. Domingos de Ancede. A paróquia começou a ter livros próprios de registo de Baptismo e de Casamento em 1685. Segundo o abade que respondeu às Inquirições Paroquiais, o pároco era reitor e tinha de renda, uns anos pelos outros, trezentos mil réis, provenientes dos dízimos do lugar de Nogueira, dos passais e do pé-de-altar. Tanto o padroeiro como o pároco pagavam Censória à Mitra de Lamego. Até aos princípios do século XIX eram os frades pregadores de Ancede que recebiam os dízimos.

O brasão da freguesia é um escudo clássico português partido e sobrepujado por uma coroa mural prateada, de três torres, como é próprio de uma aldeia. No fundo de cor azul podemos observar uma lira dourada, símbolo das tradições musicais da freguesia. O azul corresponde ao firmamento e significa zelo e lealdade. À esquerda, no fundo prateado estão cinco luas crescentes vermelhas. A cor prata significa eloquência e riqueza. Os cinco crescentes são os do brasão da linhagem dos Pintos da Casa da Torre da Lagariça que, desde tempos medievais, ilustrou também o nome desta terra. Ao fundo do escudo pode ver-se um lintel ou divisa com o nome da freguesia.

No que diz respeito à habitação, o tipo de construção das casas de lavradores varia com a altitude dos lugares. Enquanto que nos lugares mais elevados se vê ainda a casa típica das zonas altas, com cobertura de duas águas e resguardos do telhado contra os ventos dominantes nos extremos, na parte da freguesia mais próxima de Freigil são típicas as casas feitas de paredes grossas de granito irregular, com rés-do-chão para os gados e primeiro andar para as pessoas. As casas de granito mais antigas que se conhecem, de raiz medieval, eram de duas águas e tinham cobertura de telha mourisca.

Normalmente há uma porta num dos extremos a que dá acesso a um pequeno pátio com dois ou três degraus de escadas, e uma janela bem pequena no outro extremo. Nos séculos XVII e XVIII as habitações já apresentavam coberturas de quatro águas e aberturas mais numerosas. Algumas casas mostram as ombreiras e as padieiras das portas e janelas caiadas. Por volta de 1930/40 introduziu-se a “telha Marselha” nas coberturas.

Também se pode ver na freguesia algumas habitações de proprietários abastados do século XVII e XVIII, com paredes de pedra e cantos e cornijas bem cinzelados, e as mansões brazonadas dos fidalgos. Actualmente a construção mudou muito e lamentavelmente a casa típica está a desaparecer. O granito foi substituído pelo tijolo e bloco e a telha é de cimento ou de capa e caleiro.
São Cipriano foi terra de “famílias fidalgas e homens ilustres”, tais como:

Fidalgos da Lagariça
Desta ilustre casa são vários os senhores que se distinguiram pela sua influência social. Destaca-se Custódio José de Sousa Pimentel, capitão-mor do concelho de Aregos, falecido em 23 de Abril de 1856, o seu filho Aires de Sousa Pinto Cochofel e António Teixeira de Sousa Pinto, neto do referido capitão-mor.

Álvaro de Sousa Pinto Cochofel
Foi nesta freguesia instigador de vários melhoramentos, nomeadamente o Cruzeiro da Restauração implantado no adro da igreja, a reforma do pavimento da igreja, a construção da Residência Paroquial e a criação da Beneficiência que ele dirigiu durante vários anos.

Professor José Pinheiro Guerra
Nasceu em S. Miguel de Outeiro, perto de Viseu, mas veio como professor primário para São Cipriano. A sua escola tornou-se célebre nas redondezas.

Dr. Aires Pinto Ribeiro
Foi um médico muito distinto. Em África exerceu uma acção de enorme benemerência em favor dos infelizes.

Irmãos Monteiro
Os irmãos António, Damião, Manuel e Lindolfo Pinto Monteiro emigraram para África e fizeram fortuna. Não esquecendo a terra que os viu nascer, aqui construíram a Cantina Escolar, o Salão Recreativo e o Consultório Médico.

Felisberto Teixeira Pinto
Nasceu em 1848 no lugar de Covelo e em pequeno foi para o Porto e aí se fez um grande artista de latoaria. Tornou-se ainda escritor, editando dois livros de poesia: “Palavras de Ócio” e “Nas Margens do Douro”.

“O Mineiro de São Cipriano”
António Pinto Madureira, a quem chamavam por alcunha “O Mineiro”, nasceu a 1 de Março de 1897 no lugar de Lordelo. Em 1920 veio para São Cipriano, para “cortar” uma mina. Vivia no lugar de Falcão e aí exercia a profissão de mineiro e, algumas vezes, também a actividade de pedreiro. Foi ainda famoso pelos seus “dotes” de curandeiro. A ele acorriam pessoas das redondezas e de lugares mais longínquos para se curarem de suas doenças e padecimentos. Mas um dia o mineiro foi preso com base nos seus actos de bruxo, sendo condenado em 11 de Maio de 1966 à pena de sete meses e quinze dias de prisão, substituída por multa de 30$00 por dia, o que atingiu os 13.500$00.
Também é de salientar a sua faceta de escultor. Diversos monumentos (Alminhas, Cruzeiros e Estátuas de Santos) foram esculpidos no granito por toda a zona oeste do concelho, principalmente nas freguesias de Ovadas e São Cipriano.